3 de outubro de 2010

Ensaio sobre a Lucidez

Falo de velho: ab ovo,
velho sem posteridade
que nasceu um nado-morto
ou foi tão só um aborto,

um velho assim, sem idade.
Falo de velho de novo
e que atinge a novidade
mal se quebra a casca d'ovo.

Falo de velho com dor,
dói acolá, dói aqui,
como se fosse um tenor
desde o dó até ao si.

E digo até desse velho,
um velho sereno e sábio,
biblioteca, conselho,
que pode ser alfarrábio.

(Todos os velhos de agora,
todos os velhos futuros
foram novos, e hora a hora
lá cairão de maduros).

Posso falar de cegueira
e também de estupidez
e chegar, ficar à beira
de perder a lucidez.

Domingos da Mota

publicado também no blogue Vidráguas

18 de março de 2010

Primavera Negra

Para quê flores e pássaros nas árvores
se a primavera ainda (já) está longe?

Para quê sorrisos pendurados nas orelhas
e nas bocas inflamadas dos discursos

se o que se vê é o ódio à flor da pele?
Para quê flores e pássaros e sorrisos?

Vista-se a natureza de espingardas,
de granadas, cujas flores sejam as balas

e cada pássaro uma bomba atómica.
Cresçam nas árvores primaveras negras

como o breu que nos cega e alucina;
e chovam as balas de luto das grinaldas

para festejar a vida que nos mata.
Quando as flores nascerem e os pássaros

e os sorrisos amarelos ressurgirem
que sejam de metal, tenham a cor

das armas que assassinam o futuro:
que a natureza fale de igual para igual.

Domingos da Mota