3 de Outubro de 2011

3 de Agosto de 2011

AVARENTO

Cobiça
concupiscente a moeda

o metal com um sorriso
avarento infinitesimal

Domingos da Mota

de Bolsa de Valores e Outros Poemas, Editora Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010

2 de Abril de 2011

TOCATA

Outra vez um nome:
rosto aceso, altivo,
com os olhos
pensativos, desfocados:

desvenda, abre sulcos
fatigados - de súbito
mais chão, rugoso, acídulo
Recorda, lembra

o mosto, o vinho,
o trigo, os dias
luminosos, demorados

(E os ossos a latir,
destemperados, laceram
o fulgor do lume vivo)

Domingos da Mota

de Bolsa de Valores e Outros Poemas, Editora Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010 (publicado também, com algumas variações,  na revista Di Versos - Poesia e Tradução: N.º15 - Junho de 2009 - Edições Sempre-em-Pé)

22 de Janeiro de 2011

Centro de Acolhimento

Uma chave tanto abre
como fecha muita porta

Uma velha de castigo

deitada à porta do abrigo
dormiu na rua - está morta

Domingos da Mota

10 de Janeiro de 2011

Para Sempre

Cavalgamos a luz... / e eis-nos ante
o súbito lugar da eternidade:
o nó cego do tempo que nos há-de
cumular de silêncio: doravante,

rente ao chão do futuro deslizante,
confina-se o devir que nos invade:
irrompe, surde desde a intimidade
da terra com a terra: culminante

solapa-se o sentido dos sentidos:
soterrados, dispersos, dissolvidos,
talvez foz, para sempre, assoreada;

talvez chuva de cinzas, e de vento:
no baldio mais chão de esquecimento,
talvez húmus apenas: pó / ...e nada.

Domingos da Mota

25 de Novembro de 2010

Corvos

Podem
os corvos
assolar
as terras

onde
espantalhos
e que tais
se agitam?

Rasam.
Crocitam.

Domingos da Mota

(do livro inédito, Bestiário & outros Poemas Bissextos)