16 de março de 2010

Alquimias

          a Júlio Saraiva


Quem dera que o veneno,
em vez de praga, esconjuro,
fosse vacina, antigénio,
fosse qual soneto duro

(mas para igual é preciso
ser poeta de mão cheia -
não fazer cócegas ao riso
quando o riso se incendeia).

Tomara que o veneno
criasse alguns anticorpos
para avivar, pelo menos,
estes versos quase mortos.

Vou injectá-lo nas meias.
Se não chegar aos sapatos,
deixo-o no meio das teias -
será veneno dos ratos.

E quanto ao coro de vozes
e aos desertos ardentes,
confesso que vejo as nozes,
mas que me faltam os dentes.

Domingos da Mota

réplica, canhota, com admiração, ao poema «Oitava canhestra», de Júlio Saraiva, publicado no sítio Luso-Poemas.

3 comentários:

  1. Tua organização mental engendra uns "monstrinhos" admiráveis... Imagino o texto de origem do Saraiva...

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  2. Caro HP,
    aqui vai a transcrição do poema que motivou esta alquimia.

    "Oitava canhestra"

    para o domingos da mota, que, durante uma conversa, via internet, citou-me urbano tavares rodrigues

    "Deserto com vozes"

    - Urbano Tavares Rodrigues -


    neste deserto com vozes
    crescia um fogo maduro
    nossas palavras ferozes
    deram de pular o muro
    pisados dias atrozes
    sem pistas para o futuro
    bebemos em lentas doses
    deste veneno mais puro

    Júlio Saraiva

    (nota:o Júlio Saraiva é um poeta e jornalista brasileiro, e tem o blogue http://currupiao.blogspot.com/)

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