Pomba branca, pomba branca,
ou pomba negra, quiçá,
pois golpeia, zurze, espanca,
desencanta o sabiá.
Não é pomba de Picasso,
já que alimenta e dá milho
e afia as garras de aço
e louvaminha o gatilho
de quem rouba, faz plágio
d'o dia da criação
e decanta o apanágio
em louvor do gavião.
Pomba negra como um tordo
num beija-mão que até dói:
se tivesse asas de corvo,
dos corvos de Allan Poe,
ou melhor, fosse uma águia
a guindar-se nas alturas
(não se banhasse nas águas
cabisbaixas, sem espessura).
Pomba branca, pomba branca,
ou pomba negra, quiçá,
pois golpeia, zurze, espanca,
pisoteia o sabiá.
Domingos da Mota