Refinada-
mente vestida do avesso
bichanando o terço.
Domingos da Mota
01/08/2010
16/03/2010
Alquimias
a Júlio Saraiva
Quem dera que o veneno,
em vez de praga, esconjuro,
fosse vacina, antigénio,
fosse qual soneto duro
(mas para igual é preciso
ser poeta de mão cheia -
não fazer cócegas ao riso
quando o riso se incendeia).
Tomara que o veneno
criasse alguns anticorpos
para avivar, pelo menos,
estes versos quase mortos.
Vou injectá-lo nas meias.
Se não chegar aos sapatos,
deixo-o no meio das teias -
será veneno dos ratos.
E quanto ao coro de vozes
e aos desertos ardentes,
confesso que vejo as nozes,
mas que me faltam os dentes.
Domingos da Mota
réplica, canhota, com admiração, ao poema «Oitava canhestra», de Júlio Saraiva, publicado no sítio Luso-Poemas.
Quem dera que o veneno,
em vez de praga, esconjuro,
fosse vacina, antigénio,
fosse qual soneto duro
(mas para igual é preciso
ser poeta de mão cheia -
não fazer cócegas ao riso
quando o riso se incendeia).
Tomara que o veneno
criasse alguns anticorpos
para avivar, pelo menos,
estes versos quase mortos.
Vou injectá-lo nas meias.
Se não chegar aos sapatos,
deixo-o no meio das teias -
será veneno dos ratos.
E quanto ao coro de vozes
e aos desertos ardentes,
confesso que vejo as nozes,
mas que me faltam os dentes.
Domingos da Mota
réplica, canhota, com admiração, ao poema «Oitava canhestra», de Júlio Saraiva, publicado no sítio Luso-Poemas.
21/02/2010
Pomba Negra
Pomba branca, pomba branca,
ou pomba negra, quiçá,
pois golpeia, zurze, espanca,
desencanta o sabiá.
Não é pomba de Picasso,
já que alimenta e dá milho
e afia as garras de aço
e louvaminha o gatilho
de quem rouba, faz plágio
d'o dia da criação
e decanta o apanágio
em louvor do gavião.
Pomba negra como um tordo
num beija-mão que até dói:
se tivesse asas de corvo,
dos corvos de Allan Poe,
ou melhor, fosse uma águia
a guindar-se nas alturas
(não se banhasse nas águas
cabisbaixas, sem espessura).
Pomba branca, pomba branca,
ou pomba negra, quiçá,
pois golpeia, zurze, espanca,
pisoteia o sabiá.
Domingos da Mota
ou pomba negra, quiçá,
pois golpeia, zurze, espanca,
desencanta o sabiá.
Não é pomba de Picasso,
já que alimenta e dá milho
e afia as garras de aço
e louvaminha o gatilho
de quem rouba, faz plágio
d'o dia da criação
e decanta o apanágio
em louvor do gavião.
Pomba negra como um tordo
num beija-mão que até dói:
se tivesse asas de corvo,
dos corvos de Allan Poe,
ou melhor, fosse uma águia
a guindar-se nas alturas
(não se banhasse nas águas
cabisbaixas, sem espessura).
Pomba branca, pomba branca,
ou pomba negra, quiçá,
pois golpeia, zurze, espanca,
pisoteia o sabiá.
Domingos da Mota
15/02/2010
O GRITO - 1893 - EDVARD MUNCH
Óleo, têmpera e pastel em cartão,
91x73, 5 cm
Entre o ser e o nada, não resisto
ao peso imponderável da beleza:
não do sol a brilhar como previsto
e a abrasar duramente a natureza,
nem da lua crescente como a noite,
lua cheia de insónias indolores,
mas da terra varada pelo açoite
dos olhos repletos de pavores.
Entre o ser e o nada, essa algidez
do azul que atravessa a moldura,
e os corpos distorcidos e a nudez
das cores que alucinam a pintura,
como se dos confins do infinito
fossem línguas de fogo, o medo, o grito.
Domingos da Mota
91x73, 5 cm
Entre o ser e o nada, não resisto
ao peso imponderável da beleza:
não do sol a brilhar como previsto
e a abrasar duramente a natureza,
nem da lua crescente como a noite,
lua cheia de insónias indolores,
mas da terra varada pelo açoite
dos olhos repletos de pavores.
Entre o ser e o nada, essa algidez
do azul que atravessa a moldura,
e os corpos distorcidos e a nudez
das cores que alucinam a pintura,
como se dos confins do infinito
fossem línguas de fogo, o medo, o grito.
Domingos da Mota
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